🧬 Reprodução de codornas • evidência acadêmica

Quanto tempo a fêmea continua botando ovos férteis depois que o macho sai?

A resposta está no oviduto: codornas conseguem armazenar espermatozoides e usá-los em ovulações posteriores. Por isso, retirar o macho hoje não torna os ovos inférteis amanhã.

Ilustração de codornas japonesa, gigante de corte e chinesa
Terminologia: o ovo não se torna “imaturo”. Depois que o estoque espermático deixa de fecundar os ovócitos, os ovos passam a ser inférteis.
Resumo rápido

O que os estudos encontraram

Japônica • Coturnix japonica
6,3 dias

duração média após retirar o macho

Sittmann & Abplanalp observaram média de 6,3 dias. Em outro experimento com 200 fêmeas, as estimativas variaram de 3,75 a 9,18 dias, dependendo do macho e do grupo experimental.

Faixa observada em Reddish et al.
3,75 → 9,18 dias
Abrir estudo de 1965 ↗
Chinesa • Coturnix chinensis*
9 dias

até a fertilidade chegar a zero no estudo

Com 60 pares reprodutores, a fertilidade caiu ao longo dos dias após a retirada dos machos e chegou a 0% no 9º dia. O estudo também encontrou ~75 perfurações espermáticas associadas a fertilidade >95%.

Abrir estudo de 2019 ↗

*Nome usado no artigo; classificações taxonômicas mais recentes podem usar Synoicus chinensis.

Codorna de corte/europeia
~10 dias

possibilidade média de ovos férteis

No trabalho da UFMG, os espermatozoides permaneceram nas glândulas uterovaginais por até 120 h e depois foram encontrados no infundíbulo. Os autores concluíram que isso permite ovos férteis por cerca de 10 dias.

Abrir estudo da UFMG ↗
Importante sobre “codorna gigante”: “gigante” é um nome comercial usado para linhagens maiores. O estudo brasileiro acima trabalhou com Coturnix coturnix coturnix (codorna de corte/europeia). Se a sua “gigante” for uma linhagem Jumbo de Coturnix japonica, os estudos de japônica são taxonomicamente mais diretos.
O mecanismo

Como uma única cópula pode fecundar vários ovos?

Após a cópula, parte dos espermatozoides chega à junção uterovaginal e entra em túbulos de armazenamento espermático (SST; chamados GHE em parte da literatura brasileira). Eles são liberados gradualmente e seguem em direção ao infundíbulo, região onde o ovócito é fecundado.

Isso funciona como um “estoque biológico”: a fêmea não precisa ser coberta imediatamente antes de cada ovo.

armazenamento uterovaginalliberação gradualfecundação no infundíbulo
Diagrama simplificado do armazenamento de espermatozoides no oviduto
Dados anatômicos — UFMG, 2013

O “estoque” muda de lugar com o passar dos dias

No estudo com codornas de corte, 46% das glândulas de armazenamento uterovaginais continham espermatozoides no 1º dia; isso caiu para 3% no 5º dia e 0% no 6º. Ao mesmo tempo, espermatozoides apareceram nas glândulas infundibulares.

Gráfico das glândulas com espermatozoides por dia
46%das GHE/SST com espermatozoides no dia 1
3%das GHE/SST no dia 5
0%nas GHE/SST a partir do dia 6
0,5%das GI ainda com espermatozoides no dia 10
Diagrama de rodízio de macho entre grupos de fêmeas
Manejo reprodutivo

Isso abre espaço para rodízio — mas não é automático

Um trabalho publicado em 2025 com codornas europeias acompanhou a fertilidade por 14 dias após a cópula. A taxa ficou acima de 70% apenas entre o 3º e o 5º dia. Os autores propuseram, para grandes plantéis, três fêmeas por macho em dias alternados, com nova cópula a cada três dias por fêmea.

Biologicamente, isso apoia a ideia de rodízio. Na prática, porém, ainda é necessário verificar se houve cópula e observar agressividade, compatibilidade e estresse.

Abrir estudo de 2025 ↗
Aplicação prática

Descanso da fêmea x troca genética: são objetivos diferentes

🪶 Se o objetivo é dar descanso

Retirar temporariamente um macho muito insistente pode reduzir perseguição e dano de plumagem sem zerar imediatamente a fertilidade. Isso pode ser útil como ferramenta de manejo e bem-estar.

Separe por alguns dias
A fertilidade tende a persistir por um período residual.
Observe a recuperação
Penas, pele, comportamento e condição corporal.
Valide no seu plantel
Há variação entre indivíduos, machos e linhagens.

🧬 Se o objetivo é pureza genética

A lógica se inverte. Depois de trocar o macho, os primeiros ovos podem ser fecundados por espermatozoides do macho anterior.

Para seleção de cores ou linhagens, uma margem prática conservadora de 12–14 dias antes de guardar ovos para incubação reduz o risco de paternidade anterior. Essa margem é uma inferência de manejo acima dos ~9–10 dias observados nos estudos, não um limite universal testado para toda linhagem.

Linha do tempo para troca de macho e coleta genética
Conclusão

O ponto principal

Uma fêmea de codorna pode continuar produzindo ovos férteis por vários dias depois que o macho é retirado. O período não é uma chave liga/desliga: a probabilidade cai conforme o estoque de espermatozoides diminui.

Japônicamédia 6,3 dias; estimativas 3,75–9,18 dias em outro estudo
Chinesa0% de fertilidade no 9º dia no estudo de 2019
De cortearmazenamento compatível com ~10 dias de ovos férteis
Genéticausar margem extra antes de atribuir paternidade ao macho novo
Fontes acadêmicas

Estudos citados

Sittmann, K.; Abplanalp, H. (1965). Duration and recovery of fertility in Japanese quail. British Poultry Science, 6(3), 245–250.
DOI: 10.1080/00071666508415580
Acessar a publicação ↗
Reddish, J. M.; Kirby, J. D.; Anthony, N. B. (1996). Analysis of poultry fertility data. 3. Analysis of the duration of fertility in naturally mating Japanese quail. Poultry Science, 75(1), 135–139.
DOI: 10.3382/ps.0750135
Acessar a publicação ↗
Miranda, J. L. P. S. et al. (2013). Período de permanência de espermatozoides em glândulas hospedeiras de espermatozoides e glândulas infundibulares em codorna de corte. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, 65(1), 19–28.
DOI: 10.1590/S0102-09352013000100004
Acessar a publicação ↗
Ramachandran, R.; Dos Santos, M. N.; McDaniel, C. D. (2019). Relationships among Sperm-Egg Penetration, Fertility and Egg Components of Chinese Painted Quail. International Journal of Poultry Science, 18, 101–108.
DOI: 10.3923/ijps.2019.101.108
Acessar a publicação ↗
Barbosa, N. P. M. O. et al. (2025). Desempenho e proposta de manejo reprodutivo em codornas europeias. Ciência Animal Brasileira, 26.
DOI: 10.1590/1809-6891v26e-79610E
Acessar a publicação ↗
Infográfico científico

Conteúdo de divulgação baseado nos estudos listados acima. Resultados experimentais não devem ser tratados como garantia individual para toda ave ou linhagem. Para decisões de seleção genética, valide o protocolo no próprio plantel sempre que possível.